Entrevista com Manuel Pedro Gomes PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

Manuel Pedro Gomes é o 2º entrevistado da Torcida Verde. Trata-se de um dos símbolos do futebol verde e branco mais esclarecidos da actualidade com uma visão sempre constante da problemática do desporto rei.

Manuel Pedro Gomes

Querei-nos falar do seu percurso como jogador de futebol, na seleção, no SCP, etc...
E como treinador.

Iniciei com 15 anos a minha vida de futebolista nos principiantes do Sporting. Depois fui júnior e passei a profissional com o ordenado de 1.000 escudos por mês. Como jogador representei o nosso clube durante 17 anos. Como sénior durante o tempo que lá estive o Sporting venceu. 3 Campeonatos Nacionais, 3 Taças de Portugal e a Taça das Taças. Fora os vários torneios internacionais - particulares que vencemos. Fui internacional júnior, de esperanças, B e A. Fiz parte dos Magriços na fase de qualificação. Na vitória contra a Turquia por 5-1, fui considerado o melhor jogador em campo. Entretanto partiram-me uma perna e por isso não fui à fase final do Euro 1966 de Inglaterra.

E como treinador.

Como treinador, e ao contrário do que o Mourinho diz, «na segunda época é que se vê o resultado do meu trabalho». Eu sou um treinador sem empresário e por isso considero-me um auto-sider, um desalinhado. A maioria dos clubes que treino é das divisões secundárias, os quais estão aflitos e em vias de descerem de divisão. Já salvei à volta de dez equipas de descerem, trabalhando por vezes só dois e três meses. O meu trabalho reflete-se nesse, curto período. Há três anos peguei no Oriental que estava em antepenúltimo e com os mesmos jogadores fomos campeões. Isto é um facto inédito no mundo. Também treinei várias equipas da primeira divisão: Oriental, Farense, Marítimo, U. de Leiria, Belenenses e Sporting Clube de Portugal. Para além do facto de ter sido campeão com o Oriental, também tenho um recorde que é o de ter subido da segunda, à primeira divisão quatro equipas as quais treinei em anos consecutivos: Marítimo, Rio-Ave, Académica e U. de Leiria. Tenho cinco títulos, aliados às 10 equipas que salvei posso dizer que o meu curriculum deveria ser alvo de ponderação!

Manuel Pedro Gomes

Pode relembrar como "descobriu" o ex. capitão Oceano Cruz...numa altura em que formou uma famosa dupla técnica com o Galês Jonh Toshack...

O Oceano jogava no Odivelas e eu quando estava desempregado ia ver os jogos na região e na periferia de Lisboa. Gostei da forma como ele se aplicava e entregava aos jogos e por isso quando fui contratado pelo Nacional levei-o comigo. Entretanto o Sporting voltou a contatar-me para trabalhar com um treinador estrangeiro. (Já me tinha convidado uns anos antes, mas eu recusei porque pelo feito de ter subido as quatro equipas à primeira divisão achava que deveria ser contratado para treinador principal). Entretanto falei com o Oceano e disse-lhe que o levaria para o Sporting. Ou porque ele não acreditou? Ou por outra questão que não vem a propósito. Ele renovou o contrato com o Nacional. Quando lhe telefonei para ele vir para o nosso clube, ele disse-me, «Mister já assinei pelo Nacional», claro chamei-lhe alguns nomes e tentei dar a volta ao texto. Falei com o Presidente do Nacional o meu ex. Amigo (já falecido) Dr. Nélio Mendonça, e ele disse que ia falar com o treinador. Mais tarde quando lhe voltei a telefonar, disse-me que o treinador lhe comunicou se fosse o Gonçalves não o dispensava, mas o Oceano podia ir para o Sporting. É óbvio que o Oceano foi desde logo titularíssimo no Sporting e na seleção Nacional.

Tem sido também apresentado como um estudioso do futebol, quase um cientista, um visionário do desporto rei.

No pressuposto de que a credibilidade depende de uma imagem de seriedade e de competência, e como adoro Futebol abordo-o com lucidez. Faço do campo de futebol um laboratório onde imagino, crio, inovo, revoluciono e transformo este futebol atual no futebol do futuro. O sonho, a imaginação, e a paixão são essenciais ao desenvolvimento da criatividade, são manifestações da diversidade e originalidade de cada pessoa.

Numa sociedade instável, insensível e insegura devemos criar um espaço dentro de nós, Onde more a alegria, a esperança, a confiança e a paz de espírito, para isso temos de aceitar as coisas como são: sem amargura, sem frustração, por mais injusto que nos pareça, é a lei do amicíssimo do poder da política dos interesses que se impõem à competência, à capacidade, ao saber, à independência, à frontalidade e à qualidade cultural e profissional.

Temos de reconsiderar que somos ou estamos limitados e vulneráveis a esta política dos, Job for the boys.

Por isso tenho de ser cada vez mais honesto comigo e devo, preparar-me cada vez mais para espreitar as oportunidades e avançar sem apoios. Acreditando, em mim, não só, pela capacidade de análise e de crítica, mas pela força da clarividência e da capacidade de apresentar alternativas e soluções para resolver problemas, apoiados pela minha profunda convicção, aumentando a minha auto estima.

Inventar futebol é a memória a reviver acontecimentos vividos, aliada à imaginação e às ideias. Ou seja é a perceção do futuro. A ficção, é uma mescla de coisas que acontecem durante a vida de uma pessoa. As neurociências e a psiquiatria concluíram que a memória, e a imaginação têm funções idênticas no cérebro. A mente de cada treinador trabalha de forma diferente. Uns são visionários estudam elaboram e concretizam essas visões, criam, renovam, reformam e inventam futebol.

Dado o meu passado pelo futebol revejo tudo o que fiz como jogador e treinador. Investigo, analiso as jogadas, antevejo: livres, cantos. Crio movimentações sincronizadas entre 3 e 4 jogadores. Os quais atuam ao ritmo do Futsal.

É como um quarteto em que tocam a mesma música. Cada grupo tem a sua própria missão, mas todos estão interligados.

Ando numa espécie de fim de gravidez aflito para parir os projetos que tenho na cabeça, as ideias fervilham umas atrás das outras.

Sou um insatisfeito, a vida força-me a constrangimentos que não desejava. Ou seja não poder apresentar este futebol inovador.

É primário, é humano, é natural, é inevitável. Demonstrativo. Eu invento conceitos, podem chamar-me convencido. Não adapto, não imito, não copio. Sou genuíno. Sou um deslocado dos lóbis e daqueles que não querem concorrência superior. Deus deu-nos o cérebro para pensarmos, e criarmos. Eu crio, invento e inovo futebol. Há quem aprenda com a idade e há outros que nunca crescem.

Manuel Pedro Gomes

O amor à camisola estará condenado a ser coisa ultrapassada, própria de adeptos utópicos, idealistas.

Tenho um grande número de Amigos no face-book e sinto a sua dedicação, e o seu amor ao clube, aos símbolos: o Leão e a Camisola. Para os adeptos. Os símbolos leoninos, são uma religião desportiva, idolatrada por todos os sportinguistas. Para a grande maioria dos jogadores profissionais são momentos temporais e circunstanciais, são uma espécie de camaleões. O Sporting só tem um caminho a seguir é apostar nos jogadores formados na Academia, os quais terão de ter uma aula obrigatória de psicologia para saberem o que é o Sporting. A sua história a sua mística e a honra de o representar e de envergar a sua camisola.

Quer falar-nos dos seus tempos como jogador, da ligação dos jogadores ao SCP... dos dirigentes, etc.

Eu tive uma excelente relação com diversos dirigentes. Dos quais destaco: o Major Lobo da Costa, Fernando Ramos, Mário Cunha, Homem de Figueiredo, Abrantes Mendes, (pai), e João Rocha. Como sempre fui independente, direto e frontal. Tive vários problemas com outros dirigentes, os quais não vale a pena mencionar até porque alguns já não estão entre nós.

Quer falar-nos do livro que recentemente publicou, no qual faz uma análise critica e contundente em relação aos bastidores do futebol nacional.

O meu Livro “Linha de Cabeceira” é um Bestseller já vai na 6ª edição! Segundo a opinião dos leitores, é um excelente livro que deixa os leitores felizes. A temática é futebol, mas qualquer pessoa poderia ser intérprete destes contos. O livro aborda, assuntos do dia-a-dia da sociedade contemporânea. É crítico, tem humor, é didático e pedagógico. Fazem favor de comprar!

A propósito dos agentes jogadores, a sua influência estende-se desde jovens de tenra idade.

Os agentes desportivos são uma praga que descarateriza o amor à camisola. Ao oferecerem aos miúdos isto e aquilo transformam-nos em “mercenários”. A FIFA e a UEFA não deviam permitir contratos, ou pré contratos com jogadores de menor idade, Que ganhem dinheiro nas transferências com os adultos ainda vá que não vá. Mas com os putos? Aliás um bom departamento de futebol não precisa de empresários para nada.

O SCP desde há décadas que tem lançado muitos jovens no futebol nacional. Quer falar acerca desse percurso e da realidade da Academia de Alcochete.

Tem de se fazer uma reflexão a respeito da Academia. Primeiro neste momento é uma despesa insuportável para o clube. Segundo os treinadores terão conhecimentos suficientes de prática para ensinar, e exemplificar técnica e taticamente aquilo que desejam transmitir aos miúdos? Terceiro, A UEFA, e a FIFA só permitem que os clubes formadores façam um contrato de três anos. Então apresente-se a essas entidades a despesa da Academia na formação de jovens jogadores, e em conjunto com outras Academias obriguem essas instituições a alterarem o prazo dos contratos para 6 anos. É de conhecimento de todos que da nossa academia saíram vários jogadores que são a elite do futebol internacional. Mas a venderem os juvenis e os juniores para o Barcelona e para clubes ingleses é que não lembra a ninguém!

A Torcida Verde teve o privilégio de homenagear o Manuel Pedro Gomes. Quer falar-nos acerca desse singelo prémio e deixar uma mensagem para os adeptos do SCP.

Foi uma homenagem singela mas as homenagens são sempre bem-vindas, e sentimentalmente para mim têm todas, o mesmo valor. São instituições e pessoas que gostam de nós! No vosso caso agradeci e volto a gradecer por me terem relembrado!

 

 

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