Entrevista com Júlio Rendeiro PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

Júlio Rendeiro, antigo hoquista do SCP, é o primeiro entrevistado da Torcida Verde, numa rubrica dedicada a antigos atletas da instituição.

Antigo internacional de uma modalidade importante na história do SCP, esta entrevista é um importante testemunho de um dos verdadeiros símbolos do nosso clube.

Um testemunho de um homem que, como desportista, conquistou todos os títulos da modalidade que praticou, tendo também dado o seu contributo ao SCP como dirigente.

Júlio Rendeiro

TV: Quer Falar-nos acerca da sua carreira desportiva?

Desde muito novo, tal como para muitos da minha geração, a prática desportiva era a forma mais utilizada para a juventude ocupar os seus tempos livres e crescer cultivando valores que contribuíam para o seu enriquecimento enquanto pessoa humana.

Assim, nesse então, infelizmente já muito distante, cheguei a praticar quatro modalidades desportivas diferentes: hóquei em patins no Infante de Sagres, andebol no Boavista, remo e canoagem no Centro Desportivo Universitário do Porto.

O ter sido seleccionado, em 1959, para integrar a equipa portuguesa que disputou um Campeonato Europeu de Juniores, em Lisboa, foi decisivo para uma concentração de esforços no hóquei em detrimento das outras 3 modalidades que deixei de praticar. Foi uma boa decisão.

A opção pelo hóquei permitiu aperfeiçoar-me como praticante, viajar, fazer amigos, enfim crescer desenvolvendo capacidades e valores que só a prática desportiva proporciona. Perceber que o todo vale mais do que a parte, aprender a conviver com o sucesso e o insucesso e, que nada se consegue sem trabalho, tudo isto e muito mais, devo-o ao desporto.

Os 22 anos que levei como praticante oficial de hóquei em patins, foram distribuídos entre o Infante de Sagres, quinze anos e o Sporting os últimos sete. O Infante; clube de de bairro, de Lordelo do Ouro, no Porto, foi o meu berço como homem e atleta.

Toda a minha família, vizinhos e amigos pertenciam e viviam no Infante. Lá meu pai, meu irmão e eu próprio conhecemos as mulheres que escolhemos como companheiras para a vida. Nele fui atleta e dirigente.

Mas enquanto atleta e homem os últimos 7 no Sporting foram o máximo. Primeiro e desde logo o que muito me surpreendeu, vim encontrar no Sporting um ambiente exactamente igual ao do Infante.

Vim encontrar num clube grande,na famosa e saudosa“Porta- 10A” o mesmo ambiente que conhecia do meu clube de bairro.

Convivência, amizade, relações familiares, mística clubística, enfim tudo o que caracteriza uma família unida e forte.

Ainda hoje, com regularidade, almoçamos o Xana, o Sobrinho, o Ramalhete, o Picas e mais alguns amigos.

Foi um período de ouro em termos humanos e desportivos.

No que a mim me diz respeito, 1977, ano em que deixar de jogar, foi a cereja em cima do bolo.

Ganhamos tudo o que havia para ganhar, com especial destaque para a Taça dos Clubes Campeões Europeus, título que o hóquei português perseguia há muito sem alcançar e, finalmente o Campeonato da Europa disputado na cidade do Porto.

A selecção portuguesa era nem mais nem menos do que a equipa do Sporting: Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Xana e Livramento.

Tempos que recordo com um misto de alegria, saudade e reconhecimento ao Sporting por me ter proporcionado viver anos de enorme satisfação.

TV: Nesses tempos os jogadores eram praticamente amadores

Durante a maior parte da minha carreira desportiva, os hoquistas eram, de facto, totalmente amadores.

Todavia, à medida que a Sociedade foi evoluindo para patamares de competitividade mais exigentes a prática da modalidade passou a requerer uma entrega bastante mais intensa por parte dos praticantes.

Esta situação determinou o início de pagamentos, inicialmente de despesas de transportes e, com o passar do tempo, uma evolução para valores progressivamente mais elevados terminando no profissionalismo presentemente vigente em muitos clubes.

Nada tenho contra esta evolução, até porque reconheço que determinado nível de prática desportiva exige dedicação exclusiva e, consequentemente, a passagem do praticante para o regime profissional.

Só que esta evolução tem implicações profundas a nível dos valores clubistas, designadamente da criação e manutenção da famosa ”mística” a qual, lamentavelmente, está condenada à extinção no actual quadro de profissionalização. Quando em 1971 ingressei no SCP, tive o privilégio de respirar o ambiente da saudosa e mítica “Porta 10 A”. Os finais de tarde, genuíno momento de afirmação e cultivo do ideal sportinguista. Atletas e dirigentes de todas as modalidades conviviam de forma muito intensa criando laços de amizade e solidariedade centrados na sua relação com o Sporting. Já nessa altura havia alguma remuneração que o clube suportava para apoiar alguns atletas. Mas não era essa remuneração que sustentava a prática desportiva. Os habitantes da “10 A”, viviam lá porque eram do Sporting, desfrutavam do sucesso não só da sua modalidade mas de qualquer outra.  A “10 A” era uma extensão da nossa casa em termos de espaço e afectos.

A “10 A” foi o berço de muitos sucessos.

Que saudade!

Júlio Rendeiro

TV: Conseguiu acumular as responsabilidades como atleta do SCP com as suas necessidades humanas, concretizando o objectivo de se licenciar em engenharia

Assim foi. Nunca tive qualquer dúvida de que a obtenção de qualificações académicas, que com muito sacrifício os meus pais me proporcionaram, era a única forma de poder subir na escada social e aceder a um patamar de realização pessoal satisfatória.

Aliás, devo reconhecer que sempre tive uma grande disciplina na organização da minha vida o que me permitiu que durante bastante tempo começasse o dia bem cedo a dar aulas numa escola pública, continuasse desempenhando funções de engenheiro e gestor nos Telefones de Lisboa e Porto, ocupasse o final do dia como projetista de baixa tensão e, finalmente, a noite era dedicada ao hóquei e ao Sporting, em regime de puro amadorismo, aliás, como muitos outros que então frequentavam a porta “10 A”.

TV: E quanto ao seu contributo como dirigente do Sporting?

Tive a honra de servir o Sporting como dirigente por duas vezes.

A primeira integrando a Direcção presidida por esse grande vulto sportinguista e humanista que foi o saudoso Dr. Amado de Freitas. Foi uma direcção que recebeu o enorme fardo de dirigir o clube após a gestão do grande Presidente João Rocha.

Julgo termos feito um bom trabalho no domínio da gestão e na área desportiva não futebol.

Reformulamos o espaço da nave existente sob a bancada nova do antigo estádio, criando dois espaços autónomos, uma para a prática do hóquei e outra para o andebol, basquetebol e futesal. Construímos, também, gabinetes para as diversas modalidades. Realço que este trabalho foi todo realizado por trabalhadores do Sporting. Este novo complexo acabou, para além de melhorar significativamente as condições de trabalho das nossas modalidades, por contribuir de uma forma muito práctica para o reforço do espírito “10 A”, uma vez que consolidou e fomentou a vivência diária do clube por parte da família sportinguista.

A segunda vez que procurei servir o Sporting foi no âmbito da direcção presidida pelo Dr. Bettencourt, também como responsabilidade directa na área desportiva não futebol, na qual se conseguiram tal como na gestão do Presidente Amado de Freitas alguns sucessos desportivos que não desmerecem da tradição Sportinguista.

Infelizmente os resultados do futebol, em ambas situações deploráveis foram deploráveis e tal condicionou profundamente o trabalho das Direcções que acabaram por não concluir os seus mandatos.

 

 

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